Sistema Eletrônico de Administração de Eventos - UERGS, VI Salão Integrado de Ensino, Pesquisa e Extensão & IIa Jornada de Pós-graduação da UERGS (ISSN: 2448-0010)

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A REFERENCIAÇÃO NA CONSTRUÇÃO DE TEXTOS ACADÊMICOS
Fernanda dos Santos AMERICO, Ana Paula Medeiros PINHEIRO, Bruna Marques DOS SANTOS, Rita Cristine Basso Soares SEVERO, Luciane SIPPERT

Última alteração: 2016-09-07

Resumo


1 INTRODUÇÃO

 

A referenciação textual têm despertado a atenção de inúmeros pesquisadores que investigam as questões de significação da linguagem (MONDADA, 2001; MONDADA e DUBOIS, 2003; MARCUSCHI, 1983 e 2008; KOCH et al.,2005; KOCH e ELIAS, 2010; KOCH, 2014; CAVALCANTE, 2011, 2012 e 2013; CAVALCANTE et al., 2014; e CIULLA, 2008). O interesse por este tema está diretamente relacionado à constituição textual, pois independentemente do nível de ensino, os alunos são instigados a produzirem textos e a forma como organizam as ideias interfere diretamente na construção da coerência, compreendida como princípio de interpretabilidade (KOCH, 2014).

A referenciação pode ser considerada, essencialmente, como um processo de atenção e de interação, a partir do qual os objetos de discurso emergem, dependendo do modo como os participantes conferem sentido a cada evento de fala (APOTHÉLOZ, 2001). Nesse sentido, destaca Cavalcante (2011), o objeto de discurso vai sofrendo transformações ou alterações progressivas em função da ação dos interlocutores que a ele se referem.

O tema foi proposto a partir das dificuldades vivenciadas, pelos alunos dos cursos superiores ao se depararem com o cotidiano acadêmico de construir e analisar textos, especialmente os de cunho acadêmico que exigem maior letramento como resenhas, resumos, artigos e projeto de pesquisa cientifica.

Essas lacunas que os discentes que adentram o universo acadêmico têm comprovam a importância dos estudos que se pretende fazer, visando assim uma melhora no letramento acadêmico destes e na operacionalização dos conceitos teóricos ligados à organização textual.

Neste sentido, o presente projeto tem como objetivo geral analisar o processo de letramento acadêmico dos alunos da Uergs, a partir do estudo do processo de referenciação em situações interativas de escrita acadêmica, na perspectiva da Linguística Textual e LSF. Também pretende-se construir um arcabouço teórico-metodológico  que subsidie a reflexão prática dos processos que envolvem a referenciação, elemento fundamental para construção de sentido e progressão textual visando assim construir uma metodologia que auxilie docentes de LP, que atuem no Ensino Superior a desenvolver atividades de linguística e produção textual. Esta pesquisa visa atender aos objetivos do Grupo de Pesquisa de Linguagens e culturas Educacionais da UERGS. Nessa primeira etapa, realizou-se um trabalho de revisão bibliográfica e análise inicial de identificação das categorias de referenciação que subsidiarão as análises que serão realizadas no decorrer desta pesquisa.

 

2 METODOLOGIA

 

O presente trabalho constitui parte do projeto de pesquisa de iniciação científica “Letramento acadêmico: um estudo sobre os processos de referenciação em situações interativas na escrita, na perspectiva da Linguística textual e Linguística Sistêmico Funcional (LSF) – ano 2”, que está sendo desenvolvido na Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), na Unidade em São Luiz Gonzaga. Trata-se de uma pesquisa de cunho qualitativo-interpretativista.

Os sujeitos de pesquisa são alunos de graduação da UERGS, frequentando o 1º ou 2º semestre em nível de graduação. Optou-se por sujeitos destes semestres letivos, considerando que neste período terão suas primeiras experiências com produções de gêneros textuais que circulam no contexto universitário, solicitadas por disciplinas de diferentes áreas do conhecimento. Tais alunos estão, portanto, iniciando, mais efetivamente, o desenvolvimento do seu processo de letramento acadêmico.

Os dados foram coletados em 4 cursos distintos de graduação, oferecidos em 2 unidades da UERGS, pertencentes ao Campus Regional IV. A coleta dos textos foi realizada pelas professoras pesquisadoras e bolsistas, no semestre subsequente ao que os textos foram produzidos. Foram recolhidos apenas os textos dos alunos que, por livre e espontânea vontade, ao tomarem conhecimento do projeto, desejaram participar da pesquisa e assinaram o TCLE, no semestre subsequente quando os conceitos finais já tivessem sido atribuídos.

Foram coletados 65 textos do gênero Resenha e 55 textos do gênero Relato autobiográfico.

 

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO

 

Os referentes são, portanto, entidades construídas conjuntamente na interação, em nossas práticas de linguagem, que garantem a coerência do texto. “Fazemos referência a algo quando os reportamos a pessoas, animais, objetos, sentimentos, ideias, emoções, qualquer coisa, enfim, que se torne essência, que se substantive quando falamos ou quando escrevemos” (CAVALCANTE, op.cit, p. 15). Por seu caráter substantivo, os referentes normalmente são nomeados por sintagmas nominais (a luta, a violência, o ressentimento, as pequenas vitórias, ela, esta dúvida, etc.) ou sintagmas adverbiais (hoje, aqui, assim, dentre outras), também chamados de expressões referenciais. Para ilustrar, apresentamos o exemplo a seguir:

 

(01)        O Brasil está ficando cada vez mais dependente do uso de agrotóxicos, os quais tem objetivo de alterar a composição da fauna e da flora, fazendo com que aja uma “proteção em suas lavouras” de alguns seres vivos que são considerados nocivos para o cultivo em determinadas áreas.

Quando os agricultores fazem a utilização desses produtos com fins de salvar suas plantações eles não pensam nos danos ambientais que estão cometendo, pois, esses produtos não acabam somente com aquele ser vivo que é considerado nocivo, mas prejudica também outros seres porque aquele ser vivo pode ser a fonte de alimento de outro (T9_GA_TP).

 

No exemplo (01), percebe-se a presença de alguns objetos de discurso ou expressões referenciais que se manifestam no texto, para as quais constroem-se representações originadas no processo de leitura. Destaca-se os referentes mais salientes (com algumas expressões referenciais correspondentes):

- responsáveis pelo uso dos agrotóxicos: “O Brasil”, “os agricultores”, “eles”;

- agrotóxicos: “(d)esses produtos”, “esses produtos”;

- plantas consideradas daninhas para as plantações: “seres vivos [...] nocivos”, “aquele ser vivo [...] nocivo”, “aquele ser vivo”, “fonte de alimento de outro”;

- local de aplicação dos agrotóxicos: “[suas] lavouras”, “determinadas áreas”, “[suas] plantações”

Essas expressões referenciais são compreendidas cognitivamente se os interlocutores souberem o significado das mesmas; no entanto, a representação desses referentes nunca é a mesma em qualquer situação efetiva de comunicação, pois a significação pode variar dependendo do conhecimento prévio dos interlocutores sobre estes referentes. Por exemplo, uma pessoa que não conhece os efeitos nocivos que os “agrotóxicos” podem trazer para a fauna e a flora, ou para a saúde do ser humano certamente terá dificuldade de entender o argumento apresentado, ou mesmo se este referente for empregado em outras circunstâncias terá outras conotações.

Ainda no exemplo (01), verifica-se que a progressão textual se deu por meio de expressões referenciais correspondentes que formaram várias cadeias coesivas. Tais processos fóricos de remissão e retomada, segundo Roncarati (2010, p. 44), “instalam e desinstalam os objetos em construção no/pelo discurso, criando as bases para a progressão textual, são regulados por uma intricada relação entre a atividade linguística, a cognitiva e a sociocultural. Assim, para a autora, dependendo do estatuto informacional e da organização tópica que os objetos de discurso se inserem, podem ser “introduzidos e, depois reativados, desativados ou reciclados na progressão textual” (op.cit.).

O estudo da referenciação é, portanto, essencialmente sociocognitivo e interacional. O aspecto social é contemplado por meio dos referentes linguístico-textuais, envolvendo as estratégias de referenciação – construção, reconstrução e desfocagem - na construção dos sentidos do texto/discurso, que interferem na configuração textual. O aspecto cognitivo enfatiza que o processamento referencial é cognitivamente motivado, uma vez que os sujeitos escolhem formas léxico-gramaticas de atuar sobre suas práticas discursivas, utilizando para tanto o conhecimento proveniente de seu conhecimento prévio.

É difícil categorizar todos os processos referenciais característicos das produções textuais escritas e orais. A relação entre os processos de referenciação e a construção da coerência textual pode-se dar especialmente por quatro possibilidades, discutidas por Koch (2004; 2014), Marcuschi (2005) e Cavalcante (2011; 2012), quais sejam: (1) construção (ativação) ou introdução referencial, (2) a reconstrução (reativação) ou anáforas (3) dêixis e (4) desfocalização.  No Quadro 01, apresenta-se uma síntese desses processos referenciais.

 

Construção (ativação) ou Introdução referencial

Koch (2004; 2014);

Cavalcante (2011; 2012)

 

Apresentação de novo referente sem contexto prévio

Reconstrução (reativação) Anáfora

Koch (2004; 2014);

Cavalcante (2011; 2012)

 

 

 

Retomada de um referente

Direta

Manutenção do referente

Indireta

Referente novo ancorado no        co-texto ou no contexto

Encapsuladora

Resumo de uma porção textual com possíveis acréscimos contextuais

Dêixis

Cavalcante (2011; 2012)

Expressões referenciais que só podem ser plenamente entendidas se o interlocutor souber algumas “coordenadas” do enunciador

Desfocalização

Koch (2004; 2014);

Cavalcante (2011; 2012)

Novo objeto-de-discurso, que passa a ocupar a posição focal, enquanto que o objeto retirado de foco permanece em estado de ativação parcial (standby).

Quadro 01: Principais processos referenciais

Os processos referenciais, apresentados no Quadro 02, desempenham importantes papéis na tessitura textual, desempenhando diferentes funções textual-discursivas, especialmente, no que se refere à construção da coerência e da orientação argumentativa textual.

 

4 CONCLUSÃO

Pelo exposto, torna-se relevante refletir sobre os processos de referenciação que contribuem para a construção da coerência dos textos que os participantes produzem em uma interação, especialmente no meio acadêmico, no qual se exige um maior rigor em termos de escolhas lexicogramaticais e atendimento aos propósitos comunicativos. A coerência é uma construção interativa e sociocognitiva, que depende do contexto, “não há regras específicas e universais sobre a coerência que possam ser aplicadas a todo e qualquer texto”, como salientam Cavalcante et al. (2014, p.23). Portanto, um texto será coerente se atender ao propósito comunicativo que se propõe. O alcance deste propósito comunicativo está diretamente relacionado ao emprego dos processos referenciais.

Essa primeira etapa da pesquisa, na qual se propôs aprofundar os conhecimentos teóricos relacionados às categorias da referenciação e a exemplificação em alguns textos de acadêmicos do ensino superior foi extremamente significativa para a continuidade deste trabalho. Na continuidade da pesquisa serão analisados todos os textos que constituem o corpus, a fim de identificar os processos mais recorrentes, bem como pensar possibilidades de implementação em sala de aula destes conceitos.


Palavras-chave


Linguística Textual; escrita acadêmica; processos referenciais; letramento acadêmico

Texto completo: Resumo expandido